Não acreditava que isso fosse possível. Não sei se foi amor, se foi paixão, ou algum sentimento não-identificável. Só sei que foi bom. Alguns momentos não precisam de rótulos, ou definições. Sensações que não devemos explicar, apenas sentir. Ignorar qualquer racionalidade que venha nos questionar sobre o que precisa acontecer depois. Existem situações na vida da gente que são como uma pausa no tempo, uma brecha na existência para um mergulho de desatino. E foi isso que aconteceu comigo.

Estava eu lá naquela festa, meio perdida. Aliás, estou tentando me encontrar já há algum tempo. Como alguns caminhos tem vida própria, fui levada por uma amiga para aquele pub que eu não costumava frequentar, exatamente no dia em que eu não estava a fim de sair. Fui. Saí mais para tirar meu corpo da inércia, carregar minha alma para que a vida noturna pudesse me animar um pouco. Não estava em fossa ou algo do tipo, só um pouco cansada de esperar sempre mais dos relacionamentos. Queria ficar sozinha, sabe? Comigo, com meus seriados e minhas músicas. Tem vezes em que a gente procura não achar. Mas o destino sempre tem outros planos.

Enquanto tomava uma taça de clericot, a primeira troca de olhares. Imediatamente aquela inquietação no corpo. Levantei a sobrancelha, olhei pra baixo, buscando uma resposta para aquela sensação esquisita. Um novo olhar e lá estava ele ainda me encarando. De repente ele ergueu o copo de cerveja, como quem faz um brinde e abriu um sorriso. E que sorriso. Paralisei. A primeira coisa que pensei: “eu devia ter me arrumado melhor”. E na sequência, comecei a me fazer uma série de perguntas, como uma louca: “Que calcinha eu estou usando?” “Droga, por que não passei mais perfume?” Até que percebi o quanto estava sendo idiota. Empinei a taça de clericot e quase me engasguei. Minha amiga me olhou espantada e a única coisa que consegui dizer foi: “preciso ir ao banheiro”.

Na verdade eu precisava de um ar, precisava fugir. Isso nunca tinha me acontecido. Ser dominada por uma vulnerabilidade indecifrável era novo pra mim. Respirei fundo e voltei pra festa, renovada. Até que avisto o rapaz conversando com a minha amiga, com várias pessoas ao redor da nossa mesa. Foi então que pude observá-lo. Era bonito. Mais do que isso, tinha um charme, um porte e um sorriso que me fazia querer morar nele. Me aproximei e descobri que ele conhecia minha amiga. Fomos apresentados e de cara ele mostrou interesse. Disfarcei, mas eu não podia evitar. Ele mexia comigo.

Começamos a conversar, depois dançamos, ora afastados, ora juntos e foi como se tivéssemos feito um acordo mútuo de que estávamos juntos naquela noite. Poderíamos aproveitar, mas já estávamos ligados. Um conexão inexplicável, uma empatia repentina e muito forte ao mesmo tempo. Aproveitei o embalo. Bebemos, rimos e me diverti como há tempos não acontecia. Esqueci do mundo e apenas me deixei levar. Até demais.

Um beijo, um abraço apertado, uma vontade de parar o tempo. Nem percebi o que estava fazendo. Um quarto de motel, uma música alta, champagne, uma banheira e um sonho colorido. Um sono profundo, um despertar sorrindo e a certeza de que eu não seria mais a mesma mulher. Não raciocinei, mal consegui pensar no que estava fazendo. Só queria atender aos desejos do meu corpo, da minha boca, que não parava de beijar aquele homem.

Cheguei em casa e o sol já se apresentava para um novo dia. De vez em quando, me pego sorrindo de lado, pensando naquela noite. Nunca mais o vi, mas também não fiz questão de encontrá-lo. Foi tão bom me libertar por algumas horas. Talvez um dia a gente se encontre, mas eu não crio essa expectativa. Ele surgiu para me fazer feliz naquele momento. Aprendi que minha vontade tem vida própria e que podemos abrir algumas exceções na vida, se houver transparência dos sentimentos. Me entreguei sim, me doei e amei sim, mesmo que por algumas horas.

Foi apenas uma noite, mas o suficiente para me modificar por inteira.